O segundo dia do congresso começou por dedicar especial destaque à “Dor Pós Operatória”, estreando-se no role de palestrantes as Dr.ªs Manuela Santos e Arnandina Loureira, anestesiologista e cirurgiã geral, respectivamente. De facto, dos mais de 65 milhões de indivíduos sujeitos a intervenções cirúrgicas, por ano, a grande maioria sofre de dor pós-operatória, cujo impacto pessoal e sócio-económico, aquando da falta de tratamento, poderá ser devastador: a dor aguda induz alterações no sistema nervoso central, imunológico e endócrino, impede uma mobilização precoce e prolonga o sofrimento e desconforto do indivíduo. Assim sendo, o papel do anestesiologista e do cirurgião no domínio da dor extravasa o momento da cirurgia e, por isso, urge a necessidade de dispor de todos os meios necessários ao seu controlo. A terapêutica aconselhada passa pelo recurso à potenciação de AINE’s e opióides, a título de exemplo, cuja dosagem e frequência de prescrição deverão ser avaliadas, determinadas e frequentemente reavaliadas pelo médico cirurgião. E porque “de pequenino se torce o pepino”, o primeiro painel do dia, quarto do congresso, terminou com o discurso da Dr.ª Isabel Neves acerca da “Analgesia do Pós-Operatório em Pediatria”: apesar dos mitos, a dor pós-operatória em crianças, embora obedeça a variáveis distintas da dor no adulto, é uma realidade cujo controlo passa por compreender uma forma de comunicação diferente coadjuvada muitas vezes pelos pais e/ou outros parentes e valorizar a diferente constituição física das crianças, nomeadamente menos reservas lipídicas, reduzida massa muscular e função renal diminuída, factores que, em conjunto, determinam o tipo de terapêutica a aplicar.
O espaço dirigido ao quinto painel, “A Dor como experiência individual”, abordou, na voz da Dr.ª Elizabete Neutel, a importância de uma avaliação eficaz da “Dor em Emergência e Cuidados Intensivos”, dado que é grande a afluência, aos Serviços de Urgência, de pessoas com dor aguda, tenha a sua origem base clínica, cirúrgica ou traumática – “60 a 80% dos doentes que recorrem ao Serviço de Urgência” refere esse tipo de dor – e difícil a avaliação da dor no âmbito dos Cuidados Intensivos. O doente com dor ou com possibilidade de dor (doente sedado não é sinónimo de doente analgesiado) deverá ser submetido a uma avaliação do tipo e intensidade da dor, a um plano de acção recomendado dentro dos resultados da avaliação e, posteriormente, a uma reavaliação. Ainda no âmbito da dor como experiência individual, a Dr.a Filipa Rodrigues abordou a necessidade de valorização do tratamento da dor em obstetrícia: a grávida não é “mais grávida” por suportar um parto com menos analgesia e não há dois partos iguais. Para algumas mulheres a dor é praticamente inexistente, para outras é moderada, violenta ou intolerável. Assim sendo, e tendo em conta que os factores psicológicos têm grande peso na percepção da dor, a abordagem de primeira linha será a de prevenção: uma boa preparação para o parto, baseada em informação adequada e realização de técnicas de relaxamento, é muitas vezes suficiente para o alívio da dor. Contudo, caso as dores persistam, a administração de medicamentos analgésicos ou a aplicação de técnicas de anestesia que eliminem a sensibilidade geral ou local, são alternativas viáveis e, quando correctamente avaliadas e administradas, de carácter inofensivo quer para a mãe, quer para o bebé. Para terminar em beleza o penúltimo painel do dia e do congresso, a Dr.ª Isabel Duque abordou a temática da “Dor Neuropática”, um tipo de dor crónica “desencadeada ou provocada por uma lesão ou disfunção primária do sistema nervoso central ou periférico”. É frequentemente descrita como “descarga”, “choque eléctrico”, “queimadura”, cuja região dolorosa não se circunscreve, forçosamente, ao local da lesão. A importância de contrariar o sub-diagnóstico e sub-tratamento desta doença reside no impacto significativo que tem nas actividades diárias dos que dela padecem e, por conseguinte, na sua qualidade de vida.
O sexto e último painel, “A dor em percursos paralelos” enunciou, por intermédio do poder oratório do Enf.º Henrique Dias, a temática do papel do enfermeiro na avaliação e controlo da dor, nomeadamente no que diz respeito ao processo de avaliação, instrumentos adjuvantes, importância do cuidado e apreciação sistemáticos e prolongados e, por intermédio da Prof.ª Doutora Ana Paula Sapeta, o tema “Dor: interface com os Cuidados Paliativos”: morrem por ano cerca de 105 mil pessoas em Portugal, das quais 63 mil precisam de cuidados paliativos que aliviam a dor em doenças terminais. “É necessário compreender que ter esperança não é curar mas viver com qualidade, dignidade e alegria. Os cuidados paliativos não são negros nem vazios, basta olhar com outros olhos, os do coração".
Terminadas as palestras, ouviram-se as considerações finais da Comissão Organizadora, na voz do presidente Nuno Lopes, do Núcleo de Medicina (MedUBI), por intermédio do Presidente Valter Rocha, do Presidente da Comissão Científica, Prof. Doutor Joaquim Viana e de um dos membros da Comissão de Honra, Prof. Doutor Miguel Castelo Branco.
Os que ainda quiseram terminar os dois dias de palestras com um jantar no Hotel Turismo, foram brindados com uma actuação do “Quarteto fantástico”, um grupo de ginastas da UBI.
"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente."
Fernando Pessoa