1º dia – 24 de Setembro, 2009

À sessão de abertura seguiu-se a panóplia de palestrantes com o Prof. Doutor Armando Almeida, num discurso sucinto, esclarecedor e introdutório do tema “ Neurobiologia da Dor”, a estrear o primeiro painel – “Neurofisiofarmacologia da Dor”. A dor (crónica), equiparada ao quinto sinal vital, é de facto uma doença subvalorizada pelos Cuidados de Saúde e pela população que dela é alvo, resultando da integração central de impulsos dos nervos periféricos, activados por estímulos locais mecânicos, térmicos e químicos e cuja terapêutica farmacológica assume um papel preponderante no ramo da investigação científica. Depois da que foi talvez a intervenção mais abrangente da ordem de trabalhos, seguiu-se a Prof.ª Doutora Isaura Tavares numa abordagem específica e multidimensional da terapêutica da dor, recorrendo frequentemente a alguns dos seus trabalhos de investigação, nomeadamente ao respeitante ao fármaco Gabapentina. Quis, no entanto, frisar a complexidade do caminho a percorrer nesta área e a importância da consciência da dificuldade de extrapolação de resultados - “um rato não é uma pessoa e uma pessoa não é igual à outra”.
Na abertura do segundo painel – “Inovando no Controlo da Dor” – contámos com a participação do Dr. Álvaro Monteiro que optou por proporcionar um momento de reflexão convergente a uma questão principal “…será a dor apenas de quem a sente…?” e concernente aos factores intervenientes na qualidade do controlo da dor. Qualitativamente bem cotado esteve também o espaço dirigido ao algígrafo, um aparelho concebido para os pacientes comunicarem de forma não verbal o grau de dor sentida no momento em que é percebida, desenvolvido pelo Prof. Doutor Joaquim Viana em coligação com outros dois professores da Faculdade de Ciências da Saúde e apresentado pelo primeiro, arrematando, assim, as intervenções da parte da manhã.
O terceiro e último painel, “A Dor nos diferentes Níveis de Cuidados”, com o Ocidente representado pela Dr.ª Rita Crisóstomo, o Dr. Tiago Saraiva, a Dr.ª Beatriz Craveiro Lopes e a Dr.ª Susana Abreu e o Oriente pela Dra Sofia Oliveira, destacou a componente epidemiológica da dor, nomeadamente a maior prevalência no sexo feminino, “as mulheres são as mais queixinhas”, e a estreita ligação com o nível socioeconómico – a dor é um problema de Saúde Pública que merece valorização individual. Assim sendo, concluiu-se ser da máxima importância fazer uso e aperfeiçoar os sistemas de avaliação da dor nas suas diferentes vertentes de forma a facilitar a terapêutica ao nível dos Cuidados de Saúde Primários, onde 70% das pessoas com queixas álgicas se dirige e ao nível dos Cuidados Hospitalares, onde a dor assume um papel transversal às várias especialidades. Outra das metas que se concluiu ser importante alcançar diz respeito à aliança entre as alternativas terapêuticas convencionais e outras formas de intervenção que se regem por guidelines muito particulares, algumas delas capazes de antecipar a sintomatologia aquando do processo de diagnóstico, como é o caso da acupunctura.
O primeiro dia de congresso terminou com uma sessão de musicoterapia, também ela uma alternativa feliz na área da terapêutica da dor, protagonizada pela Tuna-MUs, a tuna médica da Universidade da Beira Interior.






"As dores contadas são acalmadas." (Jean de La Bruyère)

2º dia – 25 de Setembro, 2009

O segundo dia do congresso começou por dedicar especial destaque à “Dor Pós Operatória”, estreando-se no role de palestrantes as Dr.ªs Manuela Santos e Arnandina Loureira, anestesiologista e cirurgiã geral, respectivamente. De facto, dos mais de 65 milhões de indivíduos sujeitos a intervenções cirúrgicas, por ano, a grande maioria sofre de dor pós-operatória, cujo impacto pessoal e sócio-económico, aquando da falta de tratamento, poderá ser devastador: a dor aguda induz alterações no sistema nervoso central, imunológico e endócrino, impede uma mobilização precoce e prolonga o sofrimento e desconforto do indivíduo. Assim sendo, o papel do anestesiologista e do cirurgião no domínio da dor extravasa o momento da cirurgia e, por isso, urge a necessidade de dispor de todos os meios necessários ao seu controlo. A terapêutica aconselhada passa pelo recurso à potenciação de AINE’s e opióides, a título de exemplo, cuja dosagem e frequência de prescrição deverão ser avaliadas, determinadas e frequentemente reavaliadas pelo médico cirurgião. E porque “de pequenino se torce o pepino”, o primeiro painel do dia, quarto do congresso, terminou com o discurso da Dr.ª Isabel Neves acerca da “Analgesia do Pós-Operatório em Pediatria”: apesar dos mitos, a dor pós-operatória em crianças, embora obedeça a variáveis distintas da dor no adulto, é uma realidade cujo controlo passa por compreender uma forma de comunicação diferente coadjuvada muitas vezes pelos pais e/ou outros parentes e valorizar a diferente constituição física das crianças, nomeadamente menos reservas lipídicas, reduzida massa muscular e função renal diminuída, factores que, em conjunto, determinam o tipo de terapêutica a aplicar.
O espaço dirigido ao quinto painel, “A Dor como experiência individual”, abordou, na voz da Dr.ª Elizabete Neutel, a importância de uma avaliação eficaz da “Dor em Emergência e Cuidados Intensivos”, dado que é grande a afluência, aos Serviços de Urgência, de pessoas com dor aguda, tenha a sua origem base clínica, cirúrgica ou traumática – “60 a 80% dos doentes que recorrem ao Serviço de Urgência” refere esse tipo de dor – e difícil a avaliação da dor no âmbito dos Cuidados Intensivos. O doente com dor ou com possibilidade de dor (doente sedado não é sinónimo de doente analgesiado) deverá ser submetido a uma avaliação do tipo e intensidade da dor, a um plano de acção recomendado dentro dos resultados da avaliação e, posteriormente, a uma reavaliação. Ainda no âmbito da dor como experiência individual, a Dr.a Filipa Rodrigues abordou a necessidade de valorização do tratamento da dor em obstetrícia: a grávida não é “mais grávida” por suportar um parto com menos analgesia e não há dois partos iguais. Para algumas mulheres a dor é praticamente inexistente, para outras é moderada, violenta ou intolerável. Assim sendo, e tendo em conta que os factores psicológicos têm grande peso na percepção da dor, a abordagem de primeira linha será a de prevenção: uma boa preparação para o parto, baseada em informação adequada e realização de técnicas de relaxamento, é muitas vezes suficiente para o alívio da dor. Contudo, caso as dores persistam, a administração de medicamentos analgésicos ou a aplicação de técnicas de anestesia que eliminem a sensibilidade geral ou local, são alternativas viáveis e, quando correctamente avaliadas e administradas, de carácter inofensivo quer para a mãe, quer para o bebé. Para terminar em beleza o penúltimo painel do dia e do congresso, a Dr.ª Isabel Duque abordou a temática da “Dor Neuropática”, um tipo de dor crónica “desencadeada ou provocada por uma lesão ou disfunção primária do sistema nervoso central ou periférico”. É frequentemente descrita como “descarga”, “choque eléctrico”, “queimadura”, cuja região dolorosa não se circunscreve, forçosamente, ao local da lesão. A importância de contrariar o sub-diagnóstico e sub-tratamento desta doença reside no impacto significativo que tem nas actividades diárias dos que dela padecem e, por conseguinte, na sua qualidade de vida.
O sexto e último painel, “A dor em percursos paralelos” enunciou, por intermédio do poder oratório do Enf.º Henrique Dias, a temática do papel do enfermeiro na avaliação e controlo da dor, nomeadamente no que diz respeito ao processo de avaliação, instrumentos adjuvantes, importância do cuidado e apreciação sistemáticos e prolongados e, por intermédio da Prof.ª Doutora Ana Paula Sapeta, o tema “Dor: interface com os Cuidados Paliativos”: morrem por ano cerca de 105 mil pessoas em Portugal, das quais 63 mil precisam de cuidados paliativos que aliviam a dor em doenças terminais. “É necessário compreender que ter esperança não é curar mas viver com qualidade, dignidade e alegria. Os cuidados paliativos não são negros nem vazios, basta olhar com outros olhos, os do coração".
Terminadas as palestras, ouviram-se as considerações finais da Comissão Organizadora, na voz do presidente Nuno Lopes, do Núcleo de Medicina (MedUBI), por intermédio do Presidente Valter Rocha, do Presidente da Comissão Científica, Prof. Doutor Joaquim Viana e de um dos membros da Comissão de Honra, Prof. Doutor Miguel Castelo Branco.
Os que ainda quiseram terminar os dois dias de palestras com um jantar no Hotel Turismo, foram brindados com uma actuação do “Quarteto fantástico”, um grupo de ginastas da UBI.
"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente."
Fernando Pessoa

3º dia – 26 de Setembro, 2009

Dia dedicado aos Workshops.

Workshop 1 – “Dor neuropática”
- Consistiu numa sistematização da palestra “Dor neuropática” orientada para a prática clínica. As questões “Como identificar os principais tipos de dor?”, “Como compreender os sinais e sintomas da dor neuropática?”, “Como avaliar e diagnosticar a dor neuropática?” e “Como controlar a dor neuropática e melhorar os resultados para os doentes?” foram as directrizes.

Workshop 2 – “Acupunctura e Técnicas Complementares na Terapêutica da Dor”
- Composto por duas partes: uma mais teórica, onde foram abordados vários conceitos sobre a acupunctura e suas variantes, bem como outras técnicas relativas à Medicina Tradicional Chinesa e outra mais prática com inclusão da familiarização dos congressistas com os materiais usados nesta área e aplicação a três participantes das diferentes técnicas.

Workshop 3 – “Electro-estimulação Transcutânea na Terapêutica da Dor (T.E.N.S.)
- Consistiu na explicação da T.E.N.S., uma técnica que através de uma corrente bifásica, de várias intensidades, entre dois eléctrodos, leva a analgesia e aplicação da mesma a um dos congressistas.


Workshop 4 – “Tratamento Multimodal da Dor”
- Consistiu na abordagem dos diferentes protocolos utilizados no tratamento da dor em minor, médias e major cirurgias assim como dos fármacos utilizados numa fase mais inicial e dos procedimentos de analgesia de resgate.


Workshop 5 – “A Hipnose no Tratamento da Dor”
- Organizado por partes: uma primeira com referência ao contexto histórico, uma segunda alusiva às bases neurológicas, uma terceira explicativa da ligação entre a dor e a actuação da hipnose sobre esta, à dissolução de mitos e a aplicabilidade desta técnica nas crianças e uma quarta, com componente prática, na qual um dos congressistas foi sujeito a hipnose.

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